Midia Recôncavo - Oficial - Por Anderson Bella

sábado, 30 de junho de 2012

No dia do protetor das viúvas, rua intriga moradores de Santo Estevão

A aposentada Elisabeth de Araújo é uma mulher prevenida. Tanto que, aos 60 anos, tratou de pagar o seu próprio plano funerário. Depois das parcelas quitadas, garantiu um mausoléu exclusivo no cemitério. Tinha certeza que partiria antes do marido. Dona Elisabeth só se esqueceu de uma coisa: é moradora da Rua Coronel João de Deus, conhecida como a Rua das Viúvas.
Localizada em Santo Estevão, a 150 km de Salvador, a João de Deus também poderia se chamar Rua de São Pedro, o padroeiro das mulheres que perderam seus maridos - celebrado hoje pela Igreja Católica. A via de paralelepípedos, com pouco mais de 100 metros de extensão, já chegou a ser o endereço de 18 viúvas. De uns anos para cá, algumas morreram, outras adoeceram e mudaram para a capital. Mas nove senhoras que enviuvaram ainda moram por ali.
Dona Elizabeth é a caçula delas. Seu Neném morreu vítima de enfisema pulmonar no último dia 17. “Nunca pensei em ser viúva nessa vida. Não acreditava muito nesse mito da rua. Meu marido menos ainda. Não ligava para nada. Dizia até que eu era doida de comprar caixão antes de morrer. Deu no que deu”, disse Elisabeth, que levou 34 anos casada. “Não sou uma católica muito praticante. Mas agora São Pedro tem seu lugar”.
Na verdade, São Pedro sempre teve seu lugar ali. Antes mesmo do mito das viúvas, uma festa animadíssima era organizada na rua, nas noites de 29 de junho. Uma a uma, de forma impressionante, as mulheres foram enviuvando. Mais que nunca, a rua das senhoras sem marido tinha que reverenciar o protetor. Faz 5 anos que não acontece a festa. Mas as viúvas, a fé no santo e, principalmente, a mística em torno do assunto, ficaram. “Nós somos quem menos se preocupa. Mas tem muita gente cismada”, diz a aposentada Célia Maria da Silva, a dona Suca, 67 anos, 15 de viúva. 
Superstições Dona Suca tem razão. O que muitos consideram uma simples coincidência é coisa séria para algumas pessoas. A rua das viúvas é cercada de superstições. Crendice ou maldição, fato é que é difícil encontrar um homem casado que queira morar na Coronel João de Deus. Há casos de abandono da rua. 
Cismado, Aécio Lopes, 52 anos, casado há 27, foi embora antes que fosse tarde. “O vizinho da casa ao lado morreu e deixou a mulher. Aí pensei: é hora de sair daqui”. Mudou-se para bem perto, na Rua Benjamim Constant. “Só vejo os cortejos dos enterros saindo das casas de lá”, conta. 
Apesar de tudo, o caminhoneiro Eduardo Pires da Rocha, 34, insiste em ficar. Para os amigos, ele é o próximo a receber as chaves do céu de São Pedro. É que Eduardo, casado com Silvia, mora com a sogra, a dona Suca - que é viúva. Além disso, as duas irmãs de dona Célia também são viúvas. E a mãe das três, dona Bite, morreu viúva há 1 ano e meio. “Tudo bem. Moro em uma casa de viúvas. Mas lá tem uma mulher que jamais há de ser”, aposta Eduardo, referindo-se à própria esposa.
Conta-se que um casal desavisado chegou a cancelar um contrato de aluguel quando ficou sabendo da fama. Eles tinham adiantado dois meses de pagamento ao dono da casa e abandonaram o lugar com menos de 30 dias. O marido ficou com medo. 
Em uma das casas da Rua João de Deus, a de número 75, há uma placa escrito “vende-se” e dois números de telefone. Ali morou dona Ruth, que morreu viúva no ano passado. “Os filhos ainda não tiveram nenhuma proposta. Aqui é difícil alugar e vender imóvel”, dizem os vizinhos. 
PretendentesNenhuma das viúvas voltou a se casar. Há quem aposte que os homens querem distância das senhoras daquela rua. Mas a professora aposentada Célia Rodrigues de Sousa, 68, contesta. Viúva há 17 anos, revela que elas é que não têm pretensão de buscar pretendentes. “Casar de novo para quê? Hoje em dia não existe mais casamento de verdade. Estou bem com minha viuvez”. 
Por outro lado, ninguém se esquece de seu Tercílio, que morreu no ano passado com 90 anos. Nascido e criado na rua das viúvas, nunca casou. “Vou casar para deixar mulher para os outros?”, justificava.
Há as casas que ficam nas esquinas, nas duas saídas da rua. Os vizinhos explicam que os moradores fizeram questão de construir portões secundários, voltados para os outros endereços. 
Em uma dessas casas moram Sinval Pimentel e Neuracy de Cerqueira, juntos há 47 anos, um dos raríssimos casais da rua. “Ofereci uma casa aqui para meu compadre e ele disse que não vinha por nada. Mas eu não tenho o menor receio. Não acredito nessas coisas”, disse Sinval, cheio de coragem. Aí é fácil, seu Sinval.
Festa tinha até desfile de viúvas - Viuvez não é sinônimo de tristeza e sofrimento. Foi a alegria e o bom humor das viúvas da Rua Coronel João de Deus que tornaram a festa de São Pedro um evento concorrido em Santo Estevão.
Moradores ornamentavam suas casas, comidas típicas garantiam a fartura e quadrilhas de danças eram organizadas. Mas o ponto alto da festa era sempre o desfile das viúvas.
“Não era questão de festejar a viuvez. Mas a festa mostrava que estávamos vivas”, explica a viúva Célia Maria da Silva, a dona Suca. Todas lamentam o fim da tradição, com origem na década de 1970. 
“Bons tempos aqueles. Hoje, o pessoal tá meio desanimado, algumas viúvas morreram, outras estão doentes, mas quem sabe a tradição não volta um dia?”, acredita a professora Célia Rodrigues de Sousa. Os moradores afirmam que o prefeito atual desvalorizou e deixou de apoiar a festa que acontecia na rua. 
Apesar da mística que envolve a festa de São Pedro na Rua das Viúvas, ela tem o apoio do padre da cidade, Luciano Curvelo. “Não tenho essa superstição, mas acho positivo por envolver a história, a cultura e a fé das pessoas”, diz. 
A associação de São Pedro com as viúvas não é bíblica. Tem origem popular.
Espécie de multipadroeiro, o primeiro papa da Igreja Católica é também protetor dos pescadores, já que essa era a sua profissão O santo também tem forte ligação com aqueles que desejam comprar casa própria, já que é tradicionalmente o guardião das chaves dos céus. É bom lembrar que, no calendário litúrgico da Igreja, o dia 29 de junho é também dedicado a São Paulo.
‘Ele morreu para mim’, diz viúva de marido vivo - Quer uma missão difícil? Encontre um casal na Rua Coronel João de Deus. Naquele endereço, as senhoras que não são viúvas são separadas. “Eu também sou viúva, só que de marido vivo”, repete por aí Maria Conceição Velame Teles, 73 anos, moradora da casa 108. Os dois brigaram feio e ele saiu de casa.
Dona Conceição continuou morando na rua. “Para mim, como marido, como homem, ele já morreu. A não ser que virasse um Giannechini”, brinca, entre gargalhadas. Não é a única. São várias as mulheres vivendo sozinhas na mesma rua. “Aqui quem não é viúva de marido morto, é de marido vivo”, insiste Conceição, que posa para foto como uma viúva, com uma imagem de santo nas mãos.
Outra coincidência é que boa parte das viúvas tem a mesma profissão. São professoras aposentadas. “É que na época era a profissão da moda. Como a maioria tem idades parecidas, acaba tendo a mesma profissão”, explica dona Violeta Urbano, 70, viúva há 32 anos e ex-professora. A Rua das Viúvas é uma das mais antigas da cidade. Também é conhecida como Rua do Padre. Por muitos anos, o monsenhor Waldir residiu na casa 134, justamente na Rua das Viúvas.  Informações do Correio da Cidade

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